Sunday, July 08, 2007

Meu Avô

Seu Milton, beirando os 80 anos de idade, acordou a vida inteira às 4h da manhã para cuidar da plantação e do gado. Os filhos, criados com o sacrifício e a severidade tão característicos nos lares nordestinos daquela época, puderam todos cursar faculdade na capital.


O tempo foi tirando a disposição do vaqueiro, como ele mesmo se denomina com orgulho, mas fez justiça em esperar que os filhos pudessem retribuir os cuidados dispensados pelo agora velho.


Uma vez por semana, minha mãe, por telefone, dá a boa notícia de que os netos (eu e minha irmã) passaram no vestibular. E ele se alegra. "Oh, que beleza! os netos do vaqueiro subindo na vida!".


Hoje, porém, a coisa foi um pouco diferente: ele não lembrou do neto mais velho, coincidentemente, este que vos escreve. Perguntou se As filhAs da minha mãe haviam passado no vestibular. A alegria foi a mesma ao saber da resposta, mas quase deu pra ver o homem se desfazendo.


Ou esquecemos, ou somos esquecidos, ou as duas coisas.


"Remember, remember"

Sunday, June 17, 2007

Notícia curta e inventada:

Para facilitar a vida do internauta, agora os endereços dos sites conterão extensões para mostrar a que organização o domínio está filiado, na ordem do menor para o maior.
Alguns exemplos:

Fazenda Esperança, no interior da Bahia: esperança.bahia.acmneto.acm.com.google

Rádio comunitária Imperatriz: independentimperatriz.maranhaodosul.familiasarney.com.google

Site oficial do governo: EUAmobrasil.gov.com.google

E quem tiver dúvida sobre o endereço de algum site sabe muito bem onde procurar.

Tuesday, May 08, 2007

The girl was stoned...with stones.

Aí vai uma notícia multi-facetada:

"Uma garota de 17 anos foi apedrejada até a morte no Iraque."
Não entendeu? olhemos mais de perto:

Se a mídia não me engana - e os mais espirituosos diriam que esta seria a primeira vez -, uma garota pertencente ao grupo Yezidi foi espancada e morta por oito ou nove homens (alguns, seus próprios parentes) por volta de 7 de abril em meio a uma multidão na vila de Barzhan, no norte do Iraque. A notícia foi espalhada por meio de vídeos gravados em celulares de testemunhas, posteriormente carregados no YouTube.

É claro que eu não precisava assistir a um vídeo desses, mas precisava, entende? e não foi difícil achar, pelas palavras-chave "girl", "islam" e "stoned" (esse último, me apresentando também vários vídeos de adolescentes drogadas em festas de adolescentes, graças à polissemia do termo inglês). Qual não foi minha surpresa ao encontrar, em vez das imagens em si, um vídeo-protesto feito por um de seus uploaders contra a censura dos vídeos originais. O autor também cita o link de seu site particular, onde disponibilizou o material censurado em Quick Time, um formato alternativo. (Tópico 1 = censura. Há limites?)

Eu não precisava ir tão longe pra ver vídeos tão chocantes. Mas precisava, entende? Alguém aí já viu um apedrejamento? mulheres são condenadas a tal pena com uma certa freqüência (Tópico 2 = cultura. Dá pra falar em machismo?), sempre que, pela cultura local, se configura um "crime contra a honra". No caso da garota Du'a Khalil Aswad, considerou-se que ela traiu e envergonhou sua família ao ter dormido fora de casa por uma noite e ter se envolvido em um romance com um rapaz sunita.

Pessoalmente, eu preferi ver cenas borradas pela velocidade com que a câmera-celular se movia. Qualquer coisa mais nítida e eu não sei se teria estômago para escrever isso. O pior é que não adianta tentar apagar uma imagem tão forte. Eu tenho certeza de que quem quer que tenha tido contato com esse vídeo se sentiu presente, testemunha, enjoado e enojado. Correção: qualquer ocidental que tenha visto tal material. Passadas as vertigens, temos de nos lembrar que nem todas as culturas do mundo se pautam pelos ideais humanitários do oeste. Os espirituosos diriam que, capitalistas como somos, não mataríamos um cliente em potencial. Mas não é bem por aí, pois temos pena de morte por aqui também (além da pena de uma vida miserável a que muitos são condenados diariamente). A diferença é que "não dói". (tópico 3 = Cultura. Dá pra comparar?)

Depois de a notícia ter corrido o mundo pelo YouTube, os noticiários de todo o mundo resolveram falar também (tópico 4 = pessoas de carne e osso fazendo mídia. Dá pra ser mais rápido e democrático?), o que acabou aumentando o interesse geral pelo assunto. Apesar de os vídeos não mais serem exibidos pelo site, ainda é possível comentar e ler os comentários feitos por internautas. Não é novidade que noventa e cinco por cento deles propagam idéias de vingança e ódio à cultura islâmica, o que, em uma análise mais cética, acaba por dar mais energia à discussão pró/contra a Guerra, já que o fato aconteceu precisamente em solo iraquiano. "I hate muslims, I really do", "They should be the ones being stoned", só pra dar exemplos. (tópico 5 = que cultura é essencialmente boa? e má?)

O último, mas não mais importante ponto que eu queria abordar é a intenção de quem considera um evento social digno de ser registrado. Crítica ou Apologia? Não importa muito, eu sei, afinal a coisa foi gravada e agora está nas mãos da História. No entanto, é bastante curioso saber que a sociedade do espetáculo já atingiu proporções globais (com o perdão do trocadilho). Cria-se uma rede mundial onisciente, que presta atenção tanto a apedrejamentos no Leste quanto a festas adolescentes no Oeste.

E é isso, e é muito mais que isso.

Monday, May 07, 2007

Vivendo e...

Situação-gatilho:

Eu e dois amigos, uma quadra de basquete, uns arremessos enquanto não chegava um quarto elemento pra formarmos duas duplas e começarmos a pelada. Tinha conversa também.

1.: Quer dizer que você também entrou na onda da pedofilia?
2.: Eu, por quê?
1.: Ouvi dizer que andou pegando uma menininha de 16!
E.: *arremessando*
2.: Ah, rapaz, é diferente. Peguei uma mulher de 16 anos. O povo lá do interior é assim. Ela já fugiu com homem casado, ficou entocada lá com ele durante um tempão, e já fez mais sexo na vida do que nós três juntos! Já viveu foi muito, tá por fora...
1.: Ah, só...
E.: *arremessando*

Tá bom, a pergunta inevitável é: como assim, viveu? Quem foi que viveu mais, Kant ou uma prostituta da 315? Me parece que, não fosse o primeiro tão religioso, um encontro entre os dois resultaria na mais culta noite de sexo selvagem já registrada.

E não é isso o melhor que pode sair de um encontro? ao levarmos esbarrões mundo afora, carregamos as outras pessoas conosco, tornando-as vivas só então.

Nesse sentido, viveu mais quem foi lembrado por mais gente? Digam a Zanir, o mendigo de estimação da minha cidadezinha - Icó-CE - que ele, ex-estudante de medicina, fluente em cinco línguas, uma das mentes mais promissoras até ter sido abandonado pela noiva no altar e "perdido a cabeça"...enfim, digam, digam que ele não viveu porque a cidadezinha não pára de crescer e é provável que sua história se desvie dos ouvidos da próxima geração!

A sensação que fica, agora, é a de que os Grandes, eles sim, viveram... mas e quanto à pulsão sexual não-realizada de Fernando Pessoa e tantos outros? Perguntemos nas ruas quanto de suas vidas o tal Povo está disposto a rifar para poder ganhar um lugar ao sol.

Talvez eles não tenham vivido, mas vivem hoje em dia. E aí, alguém se habilita? ninguém...?

Conclusão-degrau: o que mata mesmo é a rotina.

Trilha: "Hey Man (Now you're really living) - Eels"

Sunday, April 08, 2007

Ambrosia Parsley

"""Estava em um bar e a vi entrando. Ela é do tipo de mulher que faz qualquer um voltar a cabeça pra ver mais uma vez. Dirigiu-me um sorriso, uma vez que o bar estava quase vazio, e foi direto ao backstage. Minutos depois, subiu com sua banda ao palco e tocou durante uma hora. Durante uma hora eu não soube onde aterrissar, então não o fiz. Ao fim do show ela avisou que havia discos da banda à venda em uma mesa perto da saída, e eu, já de posse da minha cópia, pedi-lhe que autografasse. "Claro", ela disse, "é só desembrulhar o CD". Nunca vi tanta segurança. As mulheres, normalmente, cumprimentam-nos estendendo a mão para que a toquemos de leve. Não Ambrosia. Ela me saudou com um firme aperto de mãos: "Obrigada por ter vindo". "Você foi fantástica", eu. "Obrigada", ela."""

Tá legal, esbarrei com um texto parecido com esse aí enquanto procurava músicas na net, e resolvi parafraseá-lo e mostrar como não importa o que acontece. Quem se importa com a verdade, quando se pode pensar e chegar às próprias conclusões?

Neste mundo há desculpa pra quase tudo.









"If you don't want for them to hate it 'cause you're beautiful
How can you want them all to love you for the same thing?"

Saturday, January 06, 2007

The Wealthy Merchant

May these winds bring disgrace
I've seen it taste the same
Than the sweetness of glory

Taking hold of your wrist
Surrounded by tulips
And still yearning for more









"But what I need is all around me"

Saturday, July 29, 2006

Presente

Outra cidade, mais árvores, menos árvores
E pessoas, pessoas, pessoas até que
Por acaso
O jeito de dormir passou a importar
E o mais triste dos meios assistiu
Calado, a tudo, por acaso, importar
















"It's just that it's delicate"

Monday, June 12, 2006

Uma Questão Ideológica

Não vou fugir da discussão pró/contra dia dos namorados, mas também não vou ser repetitivo. Pra agradar e contrariar a todos, escrevo uma coisa que não escrevi.

My funny Valentine
Sweet comic Valentine

You make me smile with my heart


Your looks are laughable

Unphotographable

Yet you're my favorite work of art


Is you figure less than greek?

Is your mouth a little weak?
When you open it to speak

Are you smart?


Don't change a hair for me
Not if you care for me
Stay, little Valentine, stay

Each day is Valentine's Day
(My Funny Valentine - Chet Baker)

Parabéns pra quem conseguiu.
Paciência pra quem ainda não.








"Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas"

Monday, June 05, 2006

Tragédia e Romance em Só Menor

Em nada a cabo
O Q não me enlaça
Levo depois a taco

As sim, sem pre
Cis ar te ria
par ti do/a

Tudo em pás:
Mais surpresas
Nunca más










"Each day is Valentine's Day"

Thursday, May 25, 2006

floor collapsing

An incredible capacity of forgetting whatever
(Why do some patients seem more bothered by symptoms?)
I need in order to lead a normal life. Not better, they say.
(What the hell could they possibly want? 50 white teeth?)
Should be able start over from some specific moments.

You know where you are.







"That's what they call the green wave"

Monday, May 22, 2006

Ball

Físicos de um lado
Poetisas de outro
Se envergonham

Como foram parar tão longe?
Agora têm de forjar uma guerra
Discutir o assunto entre amigos

Mas a música não pára um segundo
Nada deve parar pra ouvi-los
Os menos inteligentes sabem disso

E são esses os primeiros
A desistir das teses
E do mergulho n'alma

E, ignorando disposições, expressões e exclamações
Um, dois, um... par
Bem no meio se
Encontra e
Decide
Dançar














"...merecia a visita, não de militares, mas de bailarinos. E de você e eu."

Monday, May 15, 2006

...e outras teorias

Já fui muito de olhar as luzes
Enjoei
Piscavam, atraíam, cercavam
E tudo perdia a sombra

Arranjei uma mania melhor
Olhar olhos
Do mesmo jeito inocente
Perdido na distância

E a luz deles me diz muito mais
Por não tentar ser forte
Por tentar não brilhar






"Blinking down a morse code signal. Especially for me."

Wednesday, May 10, 2006

Cric-tic-oco

Às vezes um olhar, às vezes menos
É o que tenho pra construir meu mundo
E não é por isso que ele é tão meu, oras?

São óculos que ninguém copia nem rouba
De olhos, ouvidos e nariz para boca

E só quem vive pinta, toca e dança
Quadros, músicas e passos em trança

Ouvindo, me projeto
Falando, me protejo

Às vezes um olhar, às vezes menos
É o que tenho pra construir meu mundo
E não é por isso que ele é tão seu, oras?

Eu sou o mundo.









"Que o mel é doce é coisa que me nego a afirmar, mas que parece doce eu afirmo plenamente"

Monday, May 08, 2006

L is for Love...

You see over me...
I'll never know what you've shown to other eyes
Go or go ahead and surprise me
Say you've led the way to a mirage
Go or go ahead and just try me

But oh, Medusa, kiss me and crucify
This unholy notion of the mythic powers of love

Look in her eyes
Forget about the ones that are crying

Monday, May 01, 2006

Pra Brazilha

10 anos na cidade que me roubou o sotaque
E me deu em troca a primeira vez de muitas coisas

Quase metade de uma vida
Que insiste em aprender

Que eu continue quebrando a cara
Minha e de vocês.
Existe maior prova de amor?

Wednesday, April 26, 2006

Amplexo

Mãos e costelas
Mãos e ombros
Mãos e cintura

Orelha e orelha
Pescoço e pescoço
Peito. Barriga, até.

Mas é tão difícil fazer com que
Os corações se alinhem....










"Go or go ahead and surprise me"

Tuesday, April 25, 2006

Para Sua Proteção

A verdade não existe
Tudo é permitido.











Te amo, mesmo sem te conhecer.

Wednesday, April 19, 2006

Teto Limpo, Chão Sujo - 4 cenas

Eu grito:
"Mentiroso! Assassino! Demônio!"

E você responde:
"Presente!"

Não leve a mal, eu também sou você
Mas pense: que tal?
Gastar um tempinho com o que não gostamos
Mas nos deixa orgulhosos.

Tirar os olhos do piercing do umbiguinho
E ir trocar de óculos, e ver feridas
(Não há Band-Aid pra todos, queridinho)
Dói no começo... no meio e no fim, também

E o fim nos encontra menos risonhos
Vamos todos sendo e sendo menos imbecis
Com mãos, pés e cabelos sujos de terra
E da altura que tinhamos na cintura

Ai, se ela me desse bola!

Tuesday, April 18, 2006

Incompletude

Seguindo a linha que corta a faixa, apresento um veículo que faz doer.
Paz aqui é que não há, muito menos retidão.
E se um'hora algo rimar, desconfie e siga lendo.
Siga lento, que devagar se olha mais e toca mais.

Uma arma - a mais arma - enfim, a meu e seu dispor.